Quase toda escola registra ocorrências. Um levantamento da violência na escola vai além da contagem: ele relaciona exclusões, humilhações, silêncios, assimetrias e respostas adultas que se repetem. Quando essas interações reaparecem nas mesmas condições, o professor encontra um padrão que pode interromper antes de uma crise maior.
Em julho de 2026, publiquei o estudo Violence Prevention and Polycentricity. Nele, examinei a violência como resultado de configurações de interação formadas por posições relacionais, decisões, assimetrias de poder, normas e possibilidade de dano. Nesta aplicação, transformo essa formulação em um percurso que professores e equipes escolares podem usar no cotidiano.
Ideia central
Em vez de procurar qual estudante “é violento”, o professor identifica relações que aumentam ou reduzem a possibilidade de dano. Em vez de procurar qual estudante “é violento”, o professor identifica relações que aumentam ou reduzem a possibilidade de dano.
O levantamento organiza observações situadas para orientar a prevenção. Ele não serve para atribuir diagnóstico, intenção escondida ou identidade permanente aos estudantes.
Por que contar ocorrências ainda deixa parte importante da violência invisível?
Uma proposta de definição para a violência
Violência é definida como as formas comportamentais de expressão que pessoas, grupos ou sistemas cibernéticos digitais utilizam na tentativa de...
Uma escola pode registrar três brigas, duas reclamações de responsáveis e uma denúncia de bullying. Esses números informam o que chegou aos adultos, mas não revelam necessariamente o que relaciona uma situação à seguinte.
Um estudante pode receber o mesmo apelido durante semanas sem formalizar uma queixa. Colegas podem rir, gravar ou apenas afastar-se. Professores diferentes podem perceber fragmentos e responder de modos incompatíveis. Cada episódio parece pequeno quando ninguém reúne a sequência.
Uma definição relacional da violência ajuda a deslocar a análise. O professor passa a observar quem consegue impor uma vontade, quem perde participação ou segurança, quem sustenta a situação e que dano pode crescer.
A pergunta deixa de ser apenas “o que aconteceu?”. Outra investigação ganha importância: que condições permitem que algo parecido continue acontecendo?
O que muda quando o professor observa configurações de interação?
Uma configuração de interação reúne pessoas, decisões, relações de poder, regras e consequências em uma situação concreta. O professor pode começar pela informação mais visível e avançar conforme os registros revelam novas relações.
Em alguns casos, a assimetria aparece primeiro: um estudante possui prestígio, força física, acesso a imagens ou capacidade de mobilizar o grupo. Em outros, o melhor início está no dano: alguém evita a escola, deixa de participar, muda de grupo ou passa a responder com medo.
A observação também inclui os contribuintes. Colegas, profissionais e familiares podem reforçar, permitir, ignorar ou interromper a interação. Essa ampliação ajuda a compreender por que a plateia, o silêncio e as respostas adultas influenciam a continuidade da violência.
| Dimensão | Pergunta para o levantamento |
|---|---|
| Posições relacionais | Quem conduz a interação, quem recebe seus efeitos e quem reforça, ignora ou interrompe? |
| Desejos e decisões | O que as pessoas procuram obter, preservar ou evitar naquela situação? |
| Assimetria de poder | Quem possui mais força física, prestígio, informação, apoio coletivo ou capacidade de impor consequências? |
| Regulação normativa | Que regra deveria orientar a interação e o que estudantes e adultos realmente tratam como aceitável? |
| Possibilidade de dano | Que prejuízo físico, emocional, social, acadêmico ou digital já aparece ou pode aumentar? |
Como fazer o levantamento da violência escolar em seis passos?
O professor não precisa começar por toda a escola. Um recorte pequeno ajuda a testar o procedimento, comparar episódios e descobrir quais registros realmente apoiam uma decisão.
1. Delimite uma situação e um período
Escolha uma turma, um espaço ou uma atividade. Recreio, formação de grupos, entrada e saída, aulas práticas e grupos digitais costumam revelar relações diferentes.
Para a primeira aplicação, acompanhe a situação durante duas semanas. Esse recorte mantém o trabalho viável e oferece material suficiente para comparar episódios.
2. Registre o que aconteceu antes de interpretar
Anote ações observáveis, pessoas presentes, reações, intervenções e consequências imediatas. Evite registros como “aluno agressivo”, “turma desinteressada” ou “estudante manipulador”. Essas expressões encerram a investigação cedo demais.
Durante a formação dos grupos, três estudantes recusaram repetidamente a participação de uma colega. Dois riram quando ela tentou se aproximar. Ninguém explicou o motivo. A professora reorganizou os grupos, mas a exclusão reapareceu na aula seguinte.
O registro acima preserva a sequência e permite comparar recorrências. A equipe pode discutir a interação sem depender de adjetivos ou suposições sobre personalidade.
3. Identifique quem conduz, quem recebe os efeitos e quem contribui
Observe quem inicia, pressiona, exclui ou impõe. Depois, registre quem perde espaço, segurança, autonomia ou pertencimento. Por fim, inclua quem ri, compartilha, silencia, afasta-se, protege ou chama um adulto.
As posições podem mudar conforme a situação. Um estudante afetado em uma interação pode conduzir outra. O levantamento acompanha relações concretas, não distribui identidades fixas.
4. Examine as cinco dimensões
Use as perguntas da tabela para reconstruir cada episódio. Comece pela dimensão com informação mais clara e avance para as demais. A equipe pode registrar diferentes graus de segurança, especialmente ao tratar de emoções, expectativas e decisões.
Uma boa observação distingue o que o professor viu, o que ouviu dos envolvidos e o que ainda precisa verificar. Essa separação melhora a conversa e reduz conclusões precipitadas.
5. Compare os episódios e procure recorrências
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Depois de reunir vários registros, procure repetições. As mesmas pessoas ocupam posições semelhantes? A humilhação reaparece em determinados espaços? A plateia oferece reconhecimento? Uma regra formal existe, mas ninguém a aplica do mesmo modo?
Inclua também mudanças de participação. A invisibilidade de crianças e adolescentes nas decisões escolares pode aparecer como silêncio estratégico, afastamento, obediência excessiva ou desistência de procurar ajuda.
6. Escolha uma resposta e acompanhe o que muda
O levantamento ganha valor quando orienta uma ação verificável. A equipe pode reorganizar grupos, ampliar a presença adulta em determinado espaço, conversar separadamente com estudantes, revisar uma regra ou trabalhar a função da plateia.
Quando a situação atravessa casa e escola, professores e responsáveis precisam comparar episódios sem transformar a conversa em acusação. A análise das relações entre família, valores e convivência escolar ajuda a preparar essa aproximação.
Defina também quando a equipe voltará aos registros. A comparação posterior responde à pergunta decisiva: a configuração mudou ou apenas se deslocou para outro espaço?
Proteja as informações
Use iniciais ou códigos, mantenha os registros sob acesso restrito e compartilhe apenas o necessário para a proteção e a resposta escolar. Não circule relatos, imagens ou nomes em grupos abertos de mensagens.
Que resultados podem aparecer no levantamento?
O resultado não precisa assumir a forma de uma denúncia ou de uma classificação única. O professor pode encontrar configurações diferentes, e cada uma pede uma resposta proporcional.
Episódio delimitado
A interação não reaparece, o dano permanece baixo e os estudantes reorganizam a relação depois de uma intervenção simples. A equipe acompanha sem transformar o episódio em identidade permanente.
Conflito recorrente
As divergências reaparecem entre participantes com capacidade semelhante de falar, negociar e procurar ajuda. A equipe pode investir em mediação, regras compreendidas e acompanhamento.
Configuração de intimidação
Uma pessoa ou grupo mantém vantagem consistente, enquanto outra reduz participação, demonstra medo ou encontra pouca possibilidade de resposta. A escola precisa proteger, escutar separadamente e coordenar a intervenção.
Plateia que sustenta o dano
Risos, gravações, compartilhamentos ou silêncio oferecem reconhecimento a quem humilha. A resposta precisa incluir os contribuintes e retirar a recompensa social da agressão.
Norma informal que legitima a violência
A escola proíbe a humilhação, mas estudantes ou adultos tratam apelidos, exposições e exclusões como brincadeira aceitável. A equipe precisa alinhar referências e tornar previsível a resposta institucional.
Falha de coordenação
Diferentes profissionais percebem partes do problema, mas ninguém reúne os registros, acompanha a sequência ou verifica o resultado. A escola precisa definir responsabilidades e um percurso de resposta.
O que registrar na ficha de levantamento?
A ficha precisa ser curta o bastante para entrar na rotina. Copie os campos abaixo para uma planilha, formulário institucional ou caderno de registros com acesso restrito.
- Data, horário e situação: onde e em que atividade ocorreu.
- Ação observada: o que cada pessoa fez ou disse.
- Pessoas presentes: quem participou ou acompanhou.
- Quem direcionou a interação: quem pressionou, excluiu, ameaçou ou impôs.
- Quem recebeu os efeitos: quem perdeu participação, segurança ou autonomia.
- Quem contribuiu: quem reforçou, ignorou, protegeu ou interrompeu.
- Assimetria percebida: que diferença de força, prestígio, informação ou apoio influenciou a situação.
- Regra formal e regra praticada: o que deveria acontecer e o que o grupo tratou como aceitável.
- Possibilidade de dano: que consequência já apareceu ou pode crescer.
- Resposta e acompanhamento: o que os adultos fizeram e o que mudou depois.
Também vale registrar quais ações reduziram a tensão, ampliaram a participação ou facilitaram a procura por ajuda. O levantamento precisa reconhecer condições de proteção, não apenas situações de risco.
Como transformar os registros em prevenção?
No estudo que originou esta aplicação, identifiquei três processos necessários para aproximar percepção e ação: coordenação, circulação de informações e referências normativas compartilhadas.
Coordenação
A equipe define quem recebe os registros, quem conversa com os envolvidos, quando a família participa e em que situação outros serviços precisam entrar.
Informação
Professores reúnem observações compatíveis, distinguem fatos de inferências e acompanham mudanças. Assim, uma percepção localizada pode orientar uma resposta coletiva.
Referências compartilhadas
Redução de problemas de comportamento e a educação socioemocional
Na redução de problemas de comportamento, a educação socioemocional desenvolve habilidades emocionais e sociais, gerando ambientes positivos.
Estudantes e adultos compreendem quais condutas exigem intervenção e quais respostas a escola sustenta. A clareza reduz tolerâncias seletivas e decisões contraditórias.
A educação socioemocional aplicada aos problemas de comportamento pode apoiar essa etapa quando a equipe precisa ampliar autorregulação, empatia, tomada de decisão e resolução de conflitos.
Em ambientes atravessados por ameaça recorrente, alguns estudantes também desenvolvem atenção intensa a expressões, mudanças de voz e sinais de tensão. A análise da percepção emocional em ambientes violentos ajuda a compreender por que hipervigilância e adaptação ao risco influenciam a convivência.
De onde vem o método usado neste levantamento?
A aplicação escolar desenvolvida aqui parte do estudo teórico “Violence Prevention and Polycentricity: Interactional Configurations, Regimes of Meaning, and Professional Intervention under Uncertainty”, publicado na revista Psicologia e Saúde em Debate em julho de 2026.
No trabalho, examinei como configurações de interação se estabilizam e reaparecem como regimes de significado e interação. Também relacionei o reconhecimento precoce de riscos à capacidade de profissionais e instituições coordenarem informações, interpretações e respostas.
Que caminho seguir depois do levantamento?
Depois do levantamento, a escola deixa de responder apenas ao episódio e começa a enxergar o padrão. A pergunta seguinte é mais exigente: quais condições precisam mudar para que a mesma configuração não reapareça?
Transforme os registros em um plano preventivo
O percurso principal organiza decisão situada, protocolo comum, participação, autonomia e acompanhamento das respostas escolares.
Amplie a resposta para além da sala de aula
Veja como escola, famílias, vida digital, políticas públicas e proteção de direitos participam do enfrentamento contínuo.
Descubra o que o silêncio pode esconder
Examine como decisões adultas podem reduzir participação, produzir obediência e ocultar formas persistentes de violência de baixa intensidade.
O levantamento oferece uma mudança concreta de perspectiva: o professor deixa de esperar que a violência se torne evidente e começa a reconhecer as relações que a sustentam. É nesse intervalo, entre o primeiro sinal e a repetição, que a prevenção encontra sua melhor oportunidade.
Prevenção à violência
Boa leitura
Sergio Senna



