“Estou ouvindo.” “Não vi sua mensagem.” “Só tomei uma bebida.” “Essa roupa ficou ótima.” “Não fui eu que quebrei.”
Algumas frases parecem pequenas demais para ameaçar um casamento. Outras escondem gastos, comportamentos ou decisões que afetam diretamente a vida do casal.
O leitor reconhece situações cotidianas nas listas sobre as mentiras mais contadas no casamento. O erro começa quando alguém trata todas essas frases como equivalentes ou acredita que uma enquete estrangeira descreve qualquer relação conjugal.
Resposta direta
As mentiras mais comuns na vida a dois costumam evitar conflito, consequência, vergonha ou desconforto. O peso de cada mentira depende da informação escondida, do acordo afetado e da decisão que o parceiro tomou com base na versão falsa.
A pergunta mais útil não é apenas “qual mentira aparece mais?”. Pergunte também:
O que a pessoa tentou evitar, proteger ou controlar ao mentir?
Quais são as 10 mentiras mais contadas no casamento?
Uma pesquisa promocional com 2.000 adultos, divulgada pela imprensa britânica, reuniu frases que pessoas afirmavam usar com seus parceiros. O levantamento não representa todos os casamentos e não equivale a uma pesquisa científica sobre mentira conjugal.
Ainda assim, o leitor pode usar a lista como entrada para uma discussão mais séria:
- “Estou ouvindo.”
- “Não estou de mau humor.”
- “Só tomei uma bebida.”
- “Não vi sua mensagem ou chamada.”
- “Você não está gordo.”
- “Estou seguindo a dieta.”
- “Eu tive um orgasmo.”
- “Essa roupa não é nova.”
- “Eu não estava olhando para outra pessoa.”
- “Não fui eu que quebrei isso.”
Talvez você já tenha ouvido alguma delas. Talvez já tenha usado uma versão parecida.
Isso não permite concluir que todas tenham a mesma gravidade. Dizer que uma roupa ficou boa, esconder uma dívida que compromete o orçamento e mentir sobre uma experiência sexual interferem na relação de formas muito diferentes.
Também não devemos transformar essa lista em uma disputa sobre quem mente mais. Comparações entre homens e mulheres dependem do método, da situação e do tipo de mentira. O IBRALE trata essa questão com mais cuidado em Homens mentem mais do que mulheres?
Como começou a pesquisa sobre mentira cotidiana?
Na década de 1990, Bella DePaulo e seus colaboradores pediram que universitários e integrantes da comunidade registrassem suas interações e mentiras durante uma semana. Os 77 universitários relataram, em média, cerca de duas mentiras por dia. Os 70 integrantes da comunidade relataram aproximadamente uma.
Em 1998, DePaulo e Deborah Kashy retomaram esses diários para comparar relações próximas e casuais. Os participantes relataram menos mentiras por interação para pessoas das quais se sentiam mais próximos. Também demonstraram maior desconforto quando mentiam nessas relações.
Em 2001, Tim Cole investigou a mentira em relações amorosas e examinou sua associação com reciprocidade de informações, tentativa de evitar punição e formas de vínculo entre os parceiros.
Por que citamos estudos antigos?
Esses trabalhos pertencem à história da pesquisa sobre mentira cotidiana e relações próximas. Eles ajudaram pesquisadores a organizar perguntas sobre frequência, função e contexto.
Não os apresentamos como retrato definitivo dos casamentos atuais. Pesquisas recentes acrescentaram análises sobre honestidade, comunicação, confiança, dinheiro, sexualidade e segredo.
O post A mentira na vida diária aprofunda esses trabalhos históricos, seus resultados e seus limites.
O que pesquisadores recentes acrescentaram?
Pesquisadores atuais deslocaram parte da atenção. Em vez de perguntar apenas quantas vezes alguém mente, passaram a examinar como honestidade, comunicação e ocultação interferem na vida do casal.
Honestidade em conversas difíceis
Em 2025, Bonnie Le e seus colaboradores reuniram 214 casais para conversar sobre uma mudança que um parceiro desejava no outro. Os participantes responderam a perguntas no momento da conversa e três meses depois.
Maior honestidade expressa e percebida apareceu associada a maior bem-estar, satisfação com a relação e motivação para mudar. A precisão com que cada parceiro avaliou a honestidade do outro não apresentou o mesmo padrão de benefícios.
Confiança e comunicação ao longo dos anos
Ashley Forbush e seus colaboradores acompanharam 2.168 casais recém-casados durante sete anos. Os pesquisadores examinaram confiança e três campos de comunicação: convivência geral, dinheiro e sexualidade.
Confiança e comunicação geral influenciaram-se reciprocamente ao longo do tempo. O mesmo ocorreu com confiança e comunicação financeira. Na sexualidade, maior confiança previu comunicação de melhor qualidade nos primeiros anos; mais tarde, a comunicação sexual passou a prever confiança com maior consistência.
Ocultação financeira dentro do casal
Hristina Nikolova, Jenny Olson e Joe Gladstone analisaram a infidelidade financeira no nível do casal. Os autores combinaram dados reais de contas bancárias, pesquisas com casais e experimentos.
Casais com maior diferença entre os parceiros quanto à disposição para esconder gastos, dívidas ou outras condutas financeiras relataram menor bem-estar financeiro e menor satisfação com a relação. Esses casais também apresentaram mais objetivos financeiros individuais e menos objetivos compartilhados.
O que a pesquisa recente acrescenta
No casamento, o peso da mentira depende menos do tamanho da frase e mais da informação escondida, do acordo afetado e da decisão comprometida.
Honestidade e confiança não funcionam como qualidades isoladas. Os parceiros constroem ou desgastam ambas por meio de conversas, escolhas financeiras, intimidade e cumprimento de acordos.
O que essas mentiras procuram fazer?
A mesma frase pode cumprir funções diferentes. Quem observa precisa considerar a situação, o histórico do casal e as consequências.
Mentiras de saída
A pessoa tenta encerrar uma conversa, evitar envolvimento imediato ou ganhar tempo.
“Estou ouvindo” pode significar que alguém não quer admitir que se distraiu. “Não estou de mau humor” pode servir para impedir uma discussão naquele momento.
Mentiras de autoproteção
A pessoa tenta evitar consequência, cobrança, vergonha ou perda de imagem.
“Só tomei uma bebida”, “essa roupa não é nova” e “não fui eu que quebrei” podem esconder uma quebra de acordo ou uma tentativa de fugir da responsabilidade.
Mentiras de cortesia
A pessoa tenta preservar os sentimentos do parceiro ou manter uma interação agradável.
“Essa roupa ficou ótima” ou “você não engordou” podem expressar uma intenção gentil. Ainda assim, existe diferença entre escolher o que dizer e afirmar algo que se considera falso.
O artigo Não existe mentira inocente: por que mentir para quem se ama? desenvolve o custo relacional das pequenas falsidades.
Toda omissão é mentira?
Não. Nenhuma pessoa comunica tudo o que pensa, sente ou faz. Privacidade, silêncio e escolha do momento fazem parte das relações.
Christian Klesse e Jenny van Hooff analisaram o papel dos segredos na criação, manutenção e ruptura da intimidade. Os autores rejeitaram a oposição simplista entre transparência total e segredo.
Isso não transforma mentira em privacidade. A omissão se aproxima da mentira quando alguém esconde conscientemente uma informação relevante para induzir o parceiro a uma conclusão falsa.
Privacidade preserva uma esfera pessoal. A mentira altera a realidade na qual o outro interpreta e decide.
Esconder uma compra é infidelidade financeira?
Nem toda compra não comentada constitui infidelidade financeira. A avaliação depende dos acordos, do valor, da origem do dinheiro e das consequências para o casal.
Uma pessoa se aproxima da infidelidade financeira quando realiza uma conduta que espera que o parceiro desaprove e decide escondê-la. Isso pode envolver gastos, dívidas, contas, rendimentos, empréstimos ou patrimônio.
- O gasto compromete o orçamento comum?
- A pessoa criou uma versão falsa para ocultá-lo?
- O casal havia estabelecido algum acordo financeiro?
- O parceiro tomou decisões sem conhecer a situação real?
Quando as respostas indicam ocultação relevante e interferência na decisão, chamar o episódio de “mentirinha” reduz indevidamente sua gravidade.
Fingir um orgasmo é uma mentira desnecessária?
Não podemos responder sem compreender a situação. Uma pessoa pode fingir um orgasmo para encerrar a relação sexual, evitar uma conversa, proteger a autoestima do parceiro, esconder desconforto ou afastar uma reação agressiva.
Essas situações não são equivalentes. Fora de contextos de risco, a repetição dessa mentira pode bloquear conversas necessárias sobre prazer, intimidade, consentimento e expectativas.
Os resultados longitudinais de Forbush e seus colaboradores ajudam a compreender essa relação. A confiança favoreceu a comunicação sexual nos primeiros anos de casamento; posteriormente, a comunicação sexual também passou a prever confiança.
Situações de risco
Quando existe medo, coerção ou possibilidade de violência, a prioridade não consiste em exigir sinceridade imediata. A pessoa precisa preservar sua segurança e buscar apoio adequado.
Dizer a verdade sempre fortalece o casamento?
Não automaticamente. Honestidade não significa despejar qualquer pensamento sem cuidado. Existe diferença entre sinceridade e crueldade.
“Essa roupa não ficou boa em você” pode funcionar como humilhação ou como opinião respeitosa. A informação pode ser semelhante, mas o modo de falar altera a interação.
Os resultados de Le e seus colaboradores não autorizam a regra “diga tudo sem filtro”. Eles indicam que maior honestidade expressa e percebida pode beneficiar o casal até em conversas sobre mudanças desconfortáveis.
A conclusão prática é mais exigente:
Uma relação pode suportar verdades difíceis melhor do que versões falsas destinadas a evitar todo desconforto.
Como substituir uma mentira de saída?
Em muitas situações, a alternativa não exige uma confissão dramática. Uma resposta curta e verdadeira produz menos desgaste:
Como avaliar uma suspeita sem acusar apressadamente?
Suspeita não é prova. Evitar contato visual, hesitar ou ficar inquieto pode acompanhar medo, vergonha, raiva, cansaço ou ansiedade.
O sinal humano sugere; não prova. O texto A mentira aparece no rosto? Explica por que gestos e expressões não autorizam uma acusação.
Antes de reagir, faça quatro perguntas:
- Qual informação concreta parece estar errada ou incompleta?
- Essa informação afeta algum acordo ou decisão?
- Existe outra fonte que permita verificar o fato?
- A pessoa corrige o episódio ou mantém versões incompatíveis?
Interrupção reflexiva: o que já pode ser concluído?
Seu parceiro escondeu uma compra cara. O que você já pode concluir?
Você encontra no armário um objeto de alto valor. Ao perguntar quando ocorreu a compra, ouve:
“Isso é antigo. Você só não lembrava dele.”
Qual interpretação faz mais sentido?
- A pessoa certamente apresenta compulsão por compras.
- A pessoa mente porque tem medo da reação do parceiro.
- A resposta é compatível com uma tentativa de ocultar a compra, mas ainda precisamos verificar o gasto, os acordos e a repetição.
Feedback: a terceira alternativa preserva a interpretação situada. A frase pode esconder um gasto recente, mas não revela sozinha a motivação nem autoriza diagnóstico. O próximo passo consiste em verificar a informação e recuperar os acordos do casal.
O que fazer quando você percebe que tem mentido?
Reconhecer o comportamento exige mais do que prometer que ele não ocorrerá novamente.
- Corrija a informação falsa.
- Reconheça qual decisão do parceiro foi afetada.
- Assuma a consequência sem transferir a culpa.
- Observe em quais situações você tenta fugir do desconforto.
- Mantenha condutas verificáveis ao longo do tempo.
O guia Como parar de mentir? Desenvolve essa mudança com mais profundidade.
O que as mentiras mais contadas no casamento realmente revelam?
A lista não revela quais casais são felizes nem quem tem maior capacidade para enganar.
Pessoas mentem para evitar desconforto, consequência, vergonha, conflito ou perda de imagem. Algumas tentam preservar os sentimentos do parceiro. Outras protegem apenas a própria vantagem.
A interação do casal influencia essas escolhas, mas não elimina a responsabilidade. Quem mente responde pela informação que alterou ou escondeu. Quem reage de maneira abusiva responde por sua própria conduta.
Na vida a dois, muitas mentiras não procuram convencer para sempre.
Quem mente tenta apenas atravessar o desconforto imediato, enquanto transfere para o futuro o conflito e o custo de confiança.
Quer aprofundar?
Este post funciona como entrada para a rota do IBRALE sobre sinceridade, confiança e convivência.
Conheça os estudos históricos sobre frequência, motivos e contextos da mentira cotidiana.
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Perguntas frequentes sobre mentira no casamento
Esconder uma compra do parceiro é mentira?
Pode ser. Existe mentira quando alguém esconde deliberadamente uma compra relevante e cria uma versão falsa para impedir que o parceiro avalie o orçamento ou cobre um acordo.
Mentir para evitar uma briga protege o casamento?
Pode adiar a discussão, mas não resolve a causa. Quando a informação interfere em decisões do casal, o alívio imediato costuma produzir um conflito maior depois.
Elogiar sem sinceridade é sempre prejudicial?
Não necessariamente. Cortesia e delicadeza fazem parte da convivência. O risco aumenta quando elogios falsos substituem conversas importantes ou criam expectativas enganosas.
Como perceber uma mentira no casamento?
Não procure um gesto que supostamente entrega o mentiroso. Compare versões, fatos verificáveis, interesses envolvidos, acordos e consequências. Suspeita não é prova.
É possível reconstruir a confiança?
Sim, em algumas relações. Quem mentiu precisa corrigir a informação, reconhecer o impacto e manter condutas confiáveis. A pessoa enganada não tem obrigação de recuperar a confiança no ritmo desejado por quem mentiu.
Referências históricas
COLE, Tim. Lying to the one you love: the use of deception in romantic relationships. Journal of Social and Personal Relationships, v. 18, n. 1, p. 107–129, 2001. DOI 10.1177/0265407501181005.
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DEPAULO, Bella M.; KASHY, Deborah A. Everyday lies in close and casual relationships. Journal of Personality and Social Psychology, v. 74, n. 1, p. 63–79, 1998. DOI 10.1037/0022-3514.74.1.63.
Pesquisas recentes
FORBUSH, Ashley et al. Can I trust you? Bidirectional, longitudinal associations between trust and various topics of couple communication. Journal of Social and Personal Relationships, 2025. DOI 10.1177/02654075251331332.
KLESSE, Christian; VAN HOOFF, Jenny. Secrecy in intimate relationships: rethinking transparency and deceit in monogamies and non-monogamies. The Sociological Review, publicado online em 2024. DOI 10.1177/00380261241293898.
LE, Bonnie M. et al. Expressed and perceived honesty benefits relationships even when couples are not accurate. Social Psychological and Personality Science, v. 16, n. 8, p. 907–918, 2025. DOI 10.1177/19485506241312876.
NIKOLOVA, Hristina; OLSON, Jenny G.; GLADSTONE, Joe J. Financial infidelity asymmetry predicts couples’ financial and relationship well-being. International Journal of Research in Marketing, 2025. DOI 10.1016/j.ijresmar.2025.07.003.
Origem jornalística da lista
THE LADY. The top 20 lies we tell our partners. Pesquisa promocional com 2.000 adultos. Consultar a publicação.
Artigo originalmente publicado em versão anterior. Atualizado por Sergio Senna em 11 de julho de 2026, com revisão integral do texto, separação entre referências históricas e pesquisas recentes e nova organização editorial.




