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A verdade está sempre escrita em nossos rostos?

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Os indicadores não verbais são bastante confiáveis, mas você precisa ter equilíbrio na interpretação. As microexpressões faciais podem aparecer em frações de segundo quando uma pessoa tenta controlar o que sente. Elas ajudam a perceber mudanças emocionais rápidas, mas não transformam o rosto em prova de verdade, mentira ou intenção. O erro começa quando alguém trata uma pista emocional como conclusão.

Além disso, lembre-se de que só reconhecer uma emoção não adianta muito! Você precisa saber o que fazer a partir de suas observações: como vai conduzir a conversa, como lidar com as suas próprias reações emocionais e assim por diante. É isso o que faz a diferença, e não acreditar que sabe o que a outra pessoa está sentindo.

Quando as pessoas tentam, deliberadamente, ocultar suas emoções (ou inconscientemente reprimi-las), uma rápida expressão facial geralmente ocorre. Algo em torno de 1/15 a 1/25 de segundo. Apesar da brevidade desse tempo, os olhos humanos são capazes de perceber tais movimentos.

Anatomia Facial: Músculos, Microexpressões e o Enquadramento pelo FACS

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Microexpressões

Essas microexpressões são produzidas pela ação dos músculos faciais, cuja variada combinação de seus movimentos pode resultar em cerca de 10 mil expressões diferentes.

Como exemplo, uma microexpressão de desprezo pode ser vista na foto ao lado, de Francenildo Santos Costa, o famoso caseiro de uma mansão do Lago Sul em Brasília, em um de seus depoimentos, em que se observa o lábio levemente arqueado em apenas um dos cantos da boca, formando uma expressão unilateral desdenhosa. Repare que o movimento está “congelado” pela foto, mas, no momento em que ocorreu, foi muito rápido.

É possível ocultar as microexpressões e as emoções?

Muito embora alguém possa realizar esforços para esconder qualquer sinal de emoção, rápidos indícios são estampados no rosto numa fração de segundo. Essas pequenas mudanças na face podem ocorrer quando uma emoção está começando, mesmo antes que a pessoa possa sentir, conscientemente, a emoção ou a sua reação.

Com base nesse fato, o treinamento em reconhecer esses indícios pode melhorar a percepção das pessoas, quando se aprende a distinguir os sinais que interessam daqueles que devemos descartar. O vídeo a seguir (em inglês, mas o que importa são as imagens) mostra o presidente Obama em um discurso no Congresso. Preste atenção nas microexpressões de raiva, desprezo e surpresa.

No vídeo, observa-se que o autor destacou apenas algumas microexpressões, que podem ser confirmadas por outros movimentos realizados pelos nossos interlocutores. Como exemplo adicional, podemos citar o olhar para baixo e a movimentação negativa com a cabeça realizada por Joe Biden decorridos 1 minuto e 06 segundos do vídeo. Essa reação, rapidamente, substituiu a surpresa que a antecedeu.

Reconhecer as microexpressões é a mesma coisa que interpretá-las?

É importante ressaltar que as microexpressões podem indicar o que alguém está sentindo, mas não têm o poder de revelar os motivos pelos quais a pessoa se emocionou. Se alguém está mentindo, por exemplo, você verá sinais de estresse, raiva, medo ou uma composição de tudo isso. No entanto, ainda que você esteja certo e diante de um mentiroso, as razões e a maneira com que os fatos ocorreram permanecerão em segredo até que ele decida contar. Por isso, as microexpressões faciais devem ser tratadas como sinais de ativação emocional, não como tradução direta do pensamento.

Além disso, nossas emoções são muito dinâmicas:

  • O que adianta apenas reconhecer que alguém sentiu raiva, por exemplo, uma vez que no momento seguinte essa raiva pode ser superada?
  • Se você reconhece mas não tem acesso aos motivos pelos quais a pessoa se sentiu de determinada forma. Será que suas conclusões serão robustas?
  • Muitas abordagens sobre a análise de emoções se baseiam na teoria do comportamento respondente (que é bem robusta e cientificamente comprovada). No entanto, em um ambiente repleto de estímulos, nem sempre é fácil reconhecer aqueles que antecedem e que eliciam determinada emoção. Nesse contexto, uma interpretação equivocada poderá causar problemas ao observador. 

As microexpressões não são, portanto, uma “bola de cristal”! Mas ajudam a estabelecer uma relação de interlocução baseada nas primeiras emoções experimentadas pelos nossos interlocutores.

A partir da correta percepção, você pode estabelecer uma estratégia comunicativa para que a pessoa fale a verdade e conte aquilo que somente ela pode te revelar.

Aprender a reconhecer microexpressões pode ser muito valioso em sua vida pessoal ou até mesmo no trabalho. Elas podem alertá-lo para as perguntas certas a serem feitas ou mesmo para que você possa decidir que não vai perguntar mais nada.

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Sergio Senna