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Sistema nervoso e linguagem corporal: o corpo revela o quê?

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Sistema nervoso e linguagem corporal estão ligados porque emoções, atenção, ameaça, surpresa e esforço de controle produzem mudanças no corpo. Respiração, tensão muscular, rosto, postura, voz e movimentos podem se alterar quando a pessoa interpreta uma situação como relevante. Mas isso não significa que o corpo entregue uma legenda confiável sobre intenção, mentira ou verdade.

O sistema nervoso prepara o organismo para agir. Parte dessa preparação aparece no comportamento observável. O erro começa quando alguém transforma uma resposta fisiológica em conclusão psicológica automática. Um sinal corporal pode indicar ativação, desconforto, atenção ou emoção. Para interpretar melhor, precisamos olhar o contexto, a relação entre as pessoas e a sequência da interação.

Resposta direta: o sistema nervoso ajuda a explicar por que o corpo muda em situações emocionais, mas não permite ler uma pessoa como se ela fosse um livro aberto. O corpo mostra respostas. Quem interpreta precisa trabalhar com hipóteses, não com certezas.

Escolha o que você quer entender primeiro

Como o sistema nervoso aparece no corpo?

O cérebro é frequentemente comparado a um computador. Em ambos os sistemas, o processamento ocorre a transmissão de impulsos elétricos. Contudo, os elementos que formam o computador estão ligados uns aos outros: o computador é um sistema contínuo. O nosso cérebro, por outro lado, é feito de células nervosas, neurônios, os quais não estão diretamente ligados (encostados) uns aos outros; é um sistema descontínuo.

O cérebro humano tem cerca de 10.000.000.000 de neurônios, assim como células de suporte chamadas gliais (neróglia). Cada uma das células nervosas está ligada a cerca de 10.000 outros neurônios, e juntos formam uma rede que faz até do mais avançado supercomputador algo bastante rudimentar.

Existem diversos tipos de neurônios que desempenham diferentes funções, dependendo da sua localização e estrutura morfológica, mas em geral constituem-se dos mesmos componentes básicos:

 

  • o corpo do neurônio(soma) constituído de núcleo e pericário, que dá o suporte metabólico a toda a célula;
  • o axônio (fibra nervosa), prolongamento único e grande que aparece no soma, é responsável pela condução do impulso nervoso para o próximo neurônio, podendo ser revestido ou não de mielina (bainha axonial);
  • os dendritos que são prolongamentos menores em forma de ramificações (arborizações terminais) que emergem do pericário e do final do axônio. (veja a figura abaixo).
Infográfico em português sobre a estrutura de um neurônio, mostrando dendritos, corpo celular, axônio, bainha de mielina, nódulos de Ranvier e terminações axônicas
O neurônio recebe, integra e transmite sinais que participam da comunicação do sistema nervoso.

Uma propriedade especial dos neurônios é a existência de uma diferença de potencial entre o interior e o exterior da célula, que resulta da diferença de concentração de íons de sódio e de potássio. Esses são, respectivamente, o principal íon extracelular (o de sódio) e o principal íon intracelular (o de potássio). O rompimento da estabilidade no padrão de concentração dos íons resulta numa diferença de potencial, que avança rapidamente como uma onda pela superfície do neurônio. Este desequilíbrio transmitido é chamado de potencial de ação.

O potencial de ação caminha pelos longos prolongamentos (os axônios)  e,  desta forma, os impulsos nervosos são transmitidos. Quando o potencial de ação chega ao fim do axônio, não é um impulso elétrico que salta para o dendrito, e sim substâncias químicas que são liberadas. Essas substâncias estão contidas em pequenos sacos (vesículas sinápticas) no fim do axônio.

Os neurotransmissores passam pela membrana pré-sináptica, atravessam a estreita fissura entre o axônio e o dendrito do neurônio seguinte e reagem com moléculas especiais na parede do próximo neurônio. A ligação química entre os neurotransmissores (NT) e os receptores específicos no neurônio pós-sináptico garante a possibilidade da continuidade da transmissão do impulso nervoso. Um neurônio pode receber entre 1.000 e 100.000 conexões sinápticas provenientes de outras células nervosas.

Na sua atividade, o neurônio causa, de forma continuada, distúrbios na diferença de tensão. Em todos os casos em que o resultado dos distúrbios ultrapassa um determinado limite, o neurônio gera um novo potencial de ação, que é então transmitido ao longo do prolongamento da célula (axônio) até a próxima sinapse.

Ilustração moderna de uma sinapse mostrando neurotransmissores, vesículas, receptores e recaptação no sistema nervoso
A transmissão sináptica ajuda a explicar como o sistema nervoso organiza respostas corporais, mas não permite deduzir intenção ou mentira a partir de um sinal isolado.

Após o neurotransmissor cumprir a sua função, ele é empurrado do receptor e tanto pode ser destruído como recaptado pelo axônio terminal para ser reutilizado mais tarde. As substâncias químicas que bloqueiam a recaptação intensificam o efeito do neurotransmissor, já que, as suas moléculas permanecem na fenda sináptica e assim continuam a estimular os receptores, como mostrado na figura ao lado.

O neurônio é, nestes termos, uma espécie de pequena calculadora que apenas pode somar (se o desequilíbrio reforçar um ao outro) ou subtrair (se o desequilíbrio diminuir um do outro), sendo passível de comparação com um transistor de computador.

O reflexo caracterizado pelo movimento brusco do joelho é bem conhecido: um toque no tendão do joelho provoca a inclinação da perna pelo joelho. Como mecanismo não visível, acontece que o toque do martelo no tendão do joelho estimula um sinal nesse tendão, pelo qual uma, ou uma série, de ações potenciais são conduzidas ao longo do nervo até uma sinapse na medula .

Infográfico sobre o reflexo patelar mostrando tendão patelar, quadríceps, medula espinal, neurônio sensorial, neurônio motor e extensão da perna
O reflexo patelar mostra como o sistema nervoso pode organizar uma resposta corporal rápida antes de uma decisão consciente.

O neurotransmissor liberado estimula outro neurônio, cujo prolongamento envia o potencial de ação para os músculos superiores da perna, que, na sua contração, fazem com que a perna se estenda. Se bem que seja fácil para um médico evocar este reflexo, é difícil estimulá-lo a nós próprios. Esta dificuldade deve-se ao fato de a concentração necessária para estimular o reflexo existir também sobre a forma de uma série de ações potenciais opostas originadas no cerebelo, que se transmitem pela mesma medula e cancelam o efeito das ações potenciais originadas no nervo do tendão do joelho; nenhuma, ou muito poucas ações potenciais alcançam os músculos superiores das pernas e a perna permanece inclinada (veja a figura ao lado).

A ideia de que a comunicação entre os neurônios é o resultado da libertação de substâncias químicas foi primeiro avançada como uma possibilidade em 1905 pelo fisiologista britânico Thomas Elliot, mas os seus sinais foram descobertos em 1921 por Otto Loewi.

 

Otto Loewi colocou um coração de rã numa solução salina que o manteve em batimento, e deixou o fluído espalhar-se por um segundo coração de rã. Então estimulou o nervo vago do primeiro coração, o nervo que abranda o funcionamento do coração. Conforme esperado, o coração começou a bater mais lentamente, contudo e de forma totalmente inesperada, o segundo coração também começou a bater mais lentamente sem que fosse estimulado o nervo vago desse coração.
Infográfico da experiência de Loewi mostrando dois corações isolados, estimulação do nervo vago, transferência do líquido de perfusão e redução da frequência cardíaca
A experiência de Loewi ajudou a mostrar que a comunicação nervosa também ocorre por substâncias químicas, não apenas por sinais elétricos.

Para que isto pudesse acontecer, uma substância química teria de ter sido libertada pelo nervo vago do primeiro coração, que influenciou e se combinou com o fluído aspergido no segundo coração (veja a figura acima). Esta substância química foi mais tarde identificada como acetilcolina.

Conforme mencionado anteriormente, a reação entre o neurotransmissor e o receptor é muito específica. E é dessa forma que se dá a transmissão dos impulsos nervosos no cérebro.

De forma geral, básica e muito simplificada, essa é a forma como nosso sistema nervoso transmite os seus estímulos.

 

É um incrível misto de bioquímica com eletricidade que, no conjunto de nosso organismo, permite-nos o pensamento, as emoções e muitas outras funções e habilidades que nos caracterizam como humanos.

Na análise do comportamento não verbal, isso tem a sua importância com base na velocidade da transmissão desses estímulos e na resposta autonômica de certos músculos estriados, o que por nós é observado como microexpressões na face.

Para maiores detalhes sobre os assuntos aqui tratados, consulte: GUYTON, A.C. Fisiologia Humana. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara Koogan.

O que são respostas autonômicas na linguagem corporal?

O senso comum sobre a linguagem corporal, o sistema nervoso e os sinais da mentira sustenta que, a partir dos sinais observados, podemos concluir se alguém está mentindo ou dizendo a verdade. Será que nosso sistema nervoso autônomo é tão confiável assim?

Ao lermos livros sobre linguagem corporal e os sinais da mentira, bem como diversas matérias sobre o tema que estão publicadas na internet, vemos uma argumentação de que a mentira ativa o Sistema Nervoso Autônomo (SNA).

De forma geral, a literatura sobre linguagem corporal (principalmente a caracterizada como autoajuda) sustenta que, a partir dos sinais observados, podemos concluir se alguém está mentindo ou dizendo a verdade. Será que os sinais do SNA são tão confiáveis assim?

A resposta não é tão simples quanto a pergunta, e eu diria que uma abordagem adequada envolve, no mínimo, a análise de dois aspectos: (1) A ativação do SNA está ligada exclusivamente à mentira? (2) Estímulos antecedentes diferentes podem eliciar (disparar) a mesma resposta do SNA?

A questão 1 é fácil de responder. Obviamente, não é só a mentira que ativa o SNA.

A questão 2 envolve uma complexidade maior. Os experimentos de Pavlov são bem populares e bastante antigos (conhecidos como condicionamento clássico). Em determinadas circunstâncias, estímulos de diversas naturezas (incluindo alguns que eram neutros) podem eliciar respostas do SNA.

A partir dessas observações, explicarei melhor como as pessoas andam “simplificando” demais a observação do comportamento não verbal (principalmente a linguagem corporal, as expressões faciais e os gestos) ficando suscetíveis a erros grosseiros de análise.

Vamos começar por algo que chamo de Psicologia 1.0 – Comportamento Respondente.

Esse tipo de comportamento é, em poucas palavras, aquele que aparece imediatamente após um estímulo.

Essa abordagem teórica funciona muito bem quando queremos entender algo organicamente mais primitivo, como uma resposta do SNA que é provocada “quase” que imediatamente por nossos hormônios.

O próprio Dr. Ekman sugere que os sinais não verbais, expressões faciais e alguns gestos são “hard wired” (básicos e ligados ao funcionamento do organismo) e, por isso, seriam tão confiáveis.

O grande problema é que mesmo esses comportamentos podem ser eliciados por estímulos diferentes.

Como a aprendizagem entra na linguagem corporal?

O experimento de Pavlov ajuda a entender por que a interpretação da linguagem corporal não pode ser simplificada. No condicionamento clássico, um estímulo que antes era neutro passa a provocar uma resposta depois de ser associado repetidas vezes a outro estímulo biologicamente relevante.

No exemplo mais conhecido, a comida provoca salivação no cão. Depois de várias associações entre comida e sino, o som do sino passa a provocar salivação mesmo quando a comida não aparece. A questão decisiva não está no cão ou no sino. Está na lógica da associação: um estímulo pode adquirir força porque apareceu junto de outro em uma história de aprendizagem.

Infográfico em português sobre o condicionamento clássico de Pavlov, mostrando comida, sino e salivação do cão antes, durante e depois do condicionamento
O condicionamento clássico de Pavlov mostra como um estímulo neutro pode passar a evocar uma resposta após associação repetida.

Essa ideia importa muito para a linguagem corporal. Ao longo da vida, pessoas fazem inúmeros emparelhamentos entre lugares, vozes, cheiros, rostos, palavras, gestos, posturas, tons de voz, situações de ameaça, experiências de vergonha, aprovação, rejeição, alívio ou medo. Muitas dessas associações acontecem sem consciência clara do sujeito. A pessoa não precisa saber explicar por que seu corpo reagiu. Ainda assim, o corpo pode reagir.

Isso significa que a mesma resposta observável pode ter origens diferentes. Um rosto tenso pode aparecer diante de mentira, medo, dor, cansaço, constrangimento, memória ruim, desconforto social ou simples esforço de controle. Uma mão que treme pode ter relação com ansiedade, frio, uso de substância, privação de sono, doença, excitação, medo de errar ou expectativa de julgamento. O sinal existe. O problema começa quando alguém transforma o sinal em legenda psicológica.

Leitura prudente: condicionamento clássico não transforma linguagem corporal em adivinhação. Ele mostra o contrário. Como muitos estímulos podem ser associados a muitas respostas ao longo da vida, um sinal corporal raramente permite uma conclusão única. O sinal orienta perguntas. Não fecha diagnóstico.

O que o condicionamento operante acrescenta?

O condicionamento clássico ajuda a entender respostas que aparecem diante de estímulos antecedentes. O condicionamento operante acrescenta outra camada: as consequências. Um comportamento tende a se repetir quando produz alguma consequência favorável para a pessoa, ou quando remove algo desagradável. Também pode diminuir quando traz custo, perda, reprovação ou outro tipo de consequência que reduz sua probabilidade futura.

Em termos simples, reforço positivo ocorre quando algo agradável é acrescentado depois do comportamento. Reforço negativo ocorre quando algo desagradável é retirado depois do comportamento. Punição ocorre quando uma consequência reduz a chance de repetição daquela conduta. Esses processos não explicam toda a vida humana, mas ajudam a entender por que certos padrões corporais, gestuais e relacionais se mantêm.

Infográfico em português sobre condicionamento operante, mostrando reforço positivo, reforço negativo e punição com exemplos didáticos
O condicionamento operante mostra como as consequências aumentam ou reduzem a probabilidade de um comportamento.

Na linguagem corporal, isso tem efeito direto. Uma pessoa pode aprender que evitar contato visual reduz conflito. Pode aprender que sorrir demais diminui tensão em ambientes hostis. Pode aprender que manter postura rígida evita invasão de espaço. Pode aprender que demonstrar fragilidade gera cuidado, ou que não demonstrar nada reduz exposição. Em cada caso, o corpo participa de uma história de consequências.

Por isso, comportamento não verbal não deve ser tratado como reflexo puro nem como escolha plenamente consciente. Muitas condutas ficam no meio do caminho: foram aprendidas, reforçadas, ajustadas e repetidas em contextos específicos. Com o tempo, parecem espontâneas. Mas o fato de parecerem espontâneas não significa que revelem intenção atual de modo simples.

Síntese parcial: o condicionamento clássico ajuda a entender associações entre estímulos e respostas. O condicionamento operante ajuda a entender como consequências aumentam ou reduzem a chance de repetição de um comportamento. Juntos, eles mostram por que a análise do comportamento exige história, contexto e sequência, não apenas observação de um gesto isolado.

O que é a hipótese do feedback facial?

A hipótese do feedback facial acrescenta uma discussão importante. Ela propõe que a atividade dos músculos do rosto não apenas expressa emoções, mas também pode participar da experiência emocional. Em linguagem simples: o rosto não seria apenas saída da emoção. Em algumas condições, a própria atividade facial poderia influenciar como a pessoa se sente.

Um sorriso pode favorecer uma experiência afetiva mais positiva em certos contextos. Uma expressão de tensão, esforço ou desaprovação pode participar de estados de desconforto. Essa ideia interessa ao estudo da linguagem corporal porque rompe uma direção única de leitura. Não é apenas “a emoção causa a expressão”. Em alguns casos, a expressão também pode retroagir sobre a experiência emocional.

Infográfico em português sobre a hipótese do feedback facial, mostrando como expressões faciais podem influenciar a experiência emocional
A hipótese do feedback facial propõe que a atividade dos músculos do rosto pode influenciar, em alguma medida, a experiência emocional.

Mas a cautela é obrigatória. As pesquisas sobre feedback facial apresentam resultados discrepantes. Alguns estudos encontram efeitos; outros mostram efeitos pequenos, instáveis ou difíceis de reproduzir. Isso não torna a hipótese inútil. Torna a interpretação mais exigente. A hipótese continua relevante porque ajuda a pensar a relação entre rosto, corpo e emoção como uma via de mão dupla, desde que ninguém transforme essa relação em regra automática.

Esse cuidado também ajuda a situar a controvérsia em torno de Amy Cuddy e das chamadas power poses. Cuddy popularizou a ideia de que posturas expansivas poderiam aumentar a sensação de poder e produzir efeitos relevantes sobre comportamento e hormônios. A proposta ganhou enorme circulação pública, sobretudo depois de sua palestra no TED, mas entrou em forte controvérsia quando estudos posteriores não reproduziram os efeitos mais fortes, especialmente aqueles ligados a hormônios e tomada de risco. Uma das autoras do estudo original, Dana Carney, chegou a declarar que não acreditava mais na robustez dos efeitos das power poses como haviam sido apresentados inicialmente.

Infográfico em português sobre power poses, explicando a proposta, os problemas de replicação, os efeitos modestos e a necessidade de leitura prudente
As power poses mostram como uma hipótese sobre corpo e emoção pode virar promessa pública maior do que a evidência sustenta.

Isso não significa que postura, expressão facial e estado corporal sejam irrelevantes. A leitura mais prudente é outra: posturas expansivas ou contraídas podem influenciar sensação subjetiva, disposição, humor ou modo de se apresentar em certos contextos, mas a evidência não sustenta a promessa simples de que uma postura produza, de forma confiável, mudanças hormonais, sucesso social ou transformação psicológica ampla. Estudos e revisões posteriores indicam resultados mais modestos, com sinais mais consistentes para sentimentos autorrelatados do que para efeitos biológicos fortes ou desempenho objetivo.

Para este artigo, as power poses interessam menos como técnica e mais como alerta. Elas mostram o mesmo problema que aparece na interpretação da linguagem corporal: o corpo participa da experiência emocional, mas essa participação não autoriza atalhos. Entre sistema nervoso, condicionamento clássico, condicionamento operante, feedback facial, contexto social e história de aprendizagem, há camadas demais para reduzir comportamento a uma receita. A postura pode fazer parte da situação. Ela não explica a pessoa inteira.

O que fica de pé: rosto, corpo, emoção, aprendizagem e contexto se influenciam. A relação existe, mas não é linear. Quem observa uma expressão facial ou uma postura precisa trabalhar com hipóteses, não com certezas rápidas.

Por que isso impede atalhos na leitura da linguagem corporal?

Quando juntamos sistema nervoso autônomo, condicionamento clássico, condicionamento operante e feedback facial, a conclusão fica clara: a análise do comportamento é mais difícil do que os manuais de autoajuda costumam sugerir. Não basta dizer que a pessoa desviou o olhar, coçou o nariz, apertou as mãos ou ficou vermelha. Esses sinais podem indicar ativação, mas não explicam sozinhos o motivo da ativação.

O corpo pode reagir por uma emoção atual, por uma associação antiga, por uma consequência aprendida, por uma expectativa de punição, por uma tentativa de evitar conflito, por uma memória corporal, por uma condição fisiológica ou por uma combinação desses fatores. Muitas dessas camadas operam sem consciência clara. A pessoa pode sentir, reagir e ajustar sua conduta sem conseguir narrar o processo de forma precisa.

É exatamente por isso que métodos de autoajuda aplicados à linguagem corporal costumam errar o alvo. Eles pegam sinais reais e prometem conclusões excessivas. Transformam pistas em provas. Transformam probabilidade em certeza. Transformam contexto em tabela fixa. Essa simplificação parece útil porque reduz a ambiguidade. Na prática, aumenta o risco de erro.

Resposta direta: linguagem corporal não funciona como leitura automática da mente. Respostas corporais podem nascer de ativação fisiológica, associações aprendidas, consequências anteriores, hábitos relacionais e feedback entre corpo e emoção. A interpretação responsável exige contexto, comparação, sequência e prudência.

Como a linguagem corporal e o Sistema Nervoso Autônomo me ajudam a pegar a mentira?

A observação dos sinais visíveis de ativação do SNA é muito válida para a identificação da mentira. Nossa argumentação é de que essa observação deve ser feita com técnica e cuidado. Veja um artigo nosso intitulado “Não Existe um Único e Definitivo Sinal da Mentira“.

Em outro artigo trataremos da linguagem corporal e do Sistema Nervoso Autônomo, explicando o condicionamento operante, que também pode influir no estabelecimento do nosso comportamento. Antes de terminarmos, é importante ressaltar que estamos analisando apenas os processos conhecidos como básicos. Se a isso acrescentarmos os processos superiores que nos caracterizam como humanos, as interpretações podem ficar ainda mais complexas.

Outro alerta importante diz respeito à forma como os analistas do IBRALE interpretam a linguagem corporal. Procuramos considerar que os processos básicos (comuns a todos os animais) e os processos superiores (aqueles que nos caracterizam como humanos) compõem, de forma sistêmica, o nosso psiquismo e que não há, necessariamente, uma hierarquia entre eles.

 Esse aviso é importante, pois há abordagens que consideram que, já que somos humanos, os processos superiores se sobrepõem aos básicos (o que não se verifica na prática). Começamos pela explicação da influência dos processos básicos, mas consideramos tudo em nossas análises concretas.

A interpretação do comportamento não verbal não admite conclusões apressadas com base em poucos indicadores, então cuidado com julgamentos apressados e baseados em poucas observações e em pouco conhecimento sobre o assunto.

Veja mais sobre o comportamento respondente (em inglês)

Boa leitura
Sergio Senna

Quais são os limites da interpretação corporal?

O corpo pode mostrar ativação, emoção, tensão ou tentativa de controle. Mas ele não informa, sozinho, por que isso aconteceu. A mesma alteração corporal pode estar ligada a medo, vergonha, raiva, cansaço, dor, ansiedade, surpresa ou desconforto social.

Por isso, sinais corporais devem orientar perguntas, não acusações. Em linguagem corporal, a leitura prudente começa quando tratamos o sinal como hipótese situada e não como prova.

Saudações
Sergio Senna

Referências

[1] Carney, D. R., Cuddy, A. J. C., & Yap, A. J. (2010). Power Posing. Psychological Science, 21(10), 1363–1368.