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Emoções falsas em Lie to Me: sinais de simulação

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Como emoções falsas aparecem no episódio Blinded?

Este é um dos melhores episódios da primeira temporada de Lie to Me, tanto pela qualidade da história, com um final que surpreende, quanto pela forma como retoma temas importantes da série. Em Blinded, a análise das emoções falsas aparece junto de outros assuntos centrais, como linha de base, mentira, sociopatia e emoção do medo (Ekman, 2009).

Lie-to-me

Estes conceitos já foram abordados detalhadamente em outros artigos, que elencamos abaixo:

Mas, além destes aspectos, existem dois assuntos que, apesar de aparecerem rapidamente no episódio, possuem extrema importância na solução dos crimes: existe diferença entre uma verdadeira e falsa emoção, no que diz respeito à velocidade de sua manifestação?

Devemos deixar dois cuidados claros ao leitor:

(1) Com treinamento, algumas pessoas podem aprimorar a forma como expressam emoções e, até certo nível, simular determinadas reações de modo convincente.

(2) Em alguns contextos clínicos ou interpessoais, a mentira pode aparecer associada a padrões persistentes de manipulação, frieza afetiva ou baixa consideração pelo outro. Isso não autoriza diagnosticar ninguém pela expressão facial. Para entender melhor esse tema, leia:
psicopatia, sociopatia e julgamento de comportamento.

Portanto, neste artigo, quando comparamos uma emoção espontânea com uma emoção simulada, estamos falando de situações comuns de interação, sem transformar sinais faciais em diagnóstico, prova de mentira ou conclusão sobre personalidade.

Velocidade na manifestação das emoções.

Segundo Damásio (2000), as emoções possuem função social e decisiva no processo de interação. As emoções são adaptações que fazem parte do mecanismo com o qual regulamos nossa sobrevivência orgânica e social.

Conforme citado anteriormente, as emoções básicas podem se manifestar em um contexto social; entretanto, também existem manifestações orgânicas. Por exemplo, podemos sentir medo diante de alguém nos apontando uma arma ou, por outro lado, da ameaça de demissão do nosso emprego: ambos ativam a emoção básica do medo, no entanto, será que se manifestam da mesma forma?

Evidentemente que não, pois já pensou na diferença entre reagir ao medo de estar diante de um ataque iminente de uma cobra e de uma possível situação de perigo social (como o exemplo da demissão)? Na primeira situação, crítica para nossa sobrevivência (orgânica), reagiremos em uma velocidade bem mais rápida, já na segunda situação (de perigo social), passaremos por um longo período de medo, o qual pode ser alimentado por diversos fatores, tanto orgânicos (como nos alimentaremos se não tivermos mais renda, por exemplo) quanto sociais (como seremos vistos perante a sociedade, já que “fracassamos”, pois, afinal, não temos um emprego “digno”).

Situações “mistas” (social e orgânica, simultaneamente) também podem ocorrer, como, por exemplo, a reação emocional de um pai/mãe diante de um perigo iminente do filho.

Veja o vídeo a seguir. Apesar de o garoto saber todo o traçado da montanha-russa, possivelmente já a ter visto funcionando e o que esperar dela, no fundo ele ainda possui medo, mesmo sendo algo já esperado. Percebam que ele simplesmente não expressa medo imediatamente, de uma vez só; pelo contrário, existe uma formação/elaboração da emoção aos poucos (sorrisos nervosos e medo sutil no início até deflagrar o medo abertamente no meio do caminho). A emoção foi se “construindo” aos poucos, portanto, podemos perceber como se forma uma emoção mais “verdadeira”.

Agora vejam o vídeo retirado do episódio (no caso, temos a emoção de raiva se manifestando):

Ele estava acompanhando o julgamento (o que tem um certo nível de previsibilidade nos rituais, como por exemplo, sabermos que ficaremos diante do réu, que pode nos fazer sentir raiva ou aversão, dependendo do tipo de crime), o natural, no caso do vídeo, seria percebermos sinais de raiva contida ao longo do julgamento, até finalmente culminar na explosão de raiva…mas não foi o que aconteceu no vídeo.

Recomendamos a leitura do artigo “Expressões faciais fingidas são eficazes?”, de autoria do Dr. Sérgio Senna, onde podemos perceber que “falsas” emoções são utilizadas principalmente no contexto social, para obtermos algum tipo de vantagem. 

Como perceber estas emoções fingidas?

No caso do vídeo do episódio de Lie to Me, se tivéssemos como analisar o comportamento desde o início, da pessoa que veio a expressar raiva, deveríamos perceber sinais sutis de raiva ou aversão, com uma repetição crescente até finalmente se manifestar explicitamente. Mas não foi isto que ocorreu; muito pelo contrário, o personagem saiu de uma face neutra para uma expressão de raiva muito rapidamente, e, pior, quando percebeu que sua farsa deu certo, manifestou um sorriso de satisfação pelo feito.

Antes de seguir, vale fazer uma ressalva sobre a expressão “emoções falsas”. Em rigor, a emoção não é “falsa” do mesmo modo que uma frase pode ser falsa. O que pode ser simulado, exagerado, encenado ou usado estrategicamente é a expressão emocional. Uma pessoa pode produzir sinais de raiva sem estar tomada por raiva, pode sorrir por conveniência ou pode usar uma reação intensa para conduzir a interpretação de quem observa. Por isso, quando usamos aqui a expressão “emoções falsas”, estamos falando de manifestações emocionais que parecem incompatíveis com a sequência da situação, com a linha de base da pessoa ou com o modo como aquela reação aparece no tempo. A pergunta prudente não é “essa emoção é falsa?”, mas: essa expressão faz sentido dentro do contexto?

Não obstante, vale a pena observar alguns sinais que podem indicar que uma expressão não é contextualmente genuína:

(1) Desconfie de emoções que surgem muito rapidamente, afinal, se alguém passou um bom tempo sem expressar nenhuma emoção mais evidente, por que “do nada”, ocorreria uma explosão de raiva, por exemplo?

Este primeiro exemplo é bem comum no nosso cotidiano, afinal, quem já não viu “aquele” bajulador na empresa rir da piada (as vezes sem graça) do chefe?  Geralmente é um riso forte, que parte “do nada” e rapidamente se encerra.

Sempre recomendamos a não fazer análises em ambientes como o do trabalho e da família…não vale a pena empreender tanto esforço para percebermos a intenção de todos que nos cercam, seria demasiadamente estressante, afinal, muitas mentiras nos rondam. O mais importante é aprendermos a demandar energia para fazer uma análise em alguma situação que nos traga risco potencial, com a intenção de nos protegermos de possíveis danos. 

(2) As emoções geralmente são crescentes, portanto, percebam que  existem sinais sutis antes de se manifestarem mais fortemente;

(3) É muito importante perceber se, após a reação “inesperada”, ocorre algum outro tipo de emoção, como aversão (após a risada do bajulador) ou um sorriso (após fingir raiva).

Percebendo estas “distorções emocionais”, podemos evitar muitos problemas (principalmente no contexto social) e perceber muitas outras intenções além daquele sorriso ou de uma aparente explosão de raiva.

Até a próxima,

Edinaldo Oliveira

Referências:

DAMÁSIO, A. O Mistério da Consciência: do corpo e das emoções do conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

EKMAN, Paul. Períodico Lie to Me. Disponível em <https://archive.paulekman.com/wp-content/uploads/2009/11/Episode-12-Blinded.pdf>. Acesso em 10 de dezembro de 2012.

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