No dia 20/05/2012, no quadro “O que vi da vida”, do programa “Fantástico”, contamos com o depoimento da apresentadora Xuxa, a qual discorreu sobre fatos conhecidos e desconhecidos da sua vida. Após isto, viu-se uma inundação de comentários acerca do assunto, e entre esta diversidade de comentários, temos um tema recorrente: Xuxa estaria falando a verdade ou seria tudo mero teatro para chamar a atenção?

Primeiramente gostaríamos de deixar claro que o foco do presente artigo é tratar sobre a questão ética, e principalmente a privacidade do interlocutor, no que se diz respeito à comunicação não verbal em geral e à análise da linguagem corporal em particular. Não iremos entrar no mérito das possíveis conjecturas políticas, promoções ou entre outras possibilidades.
Seria correto criticar alguém por ter “faltado com partes” da verdade em um depoimento que pouco influencia diretamente nossas vidas? Até onde vale a pena (se é que vale) se utilizar da leitura não verbal para apontar erros, falhas e “críticas da personalidade” do interlocutor? Por que essa necessidade?
Leia também: Análise do Comportamento Não Verbal
Todos nós temos o direito à privacidade.
Em uma das cenas do episódio 8, da série Lie to Me, a Dra. Gilliam é interpelada por Ria Torres acerca de uma ex-paciente de Lightman que teria cometido suicídio e recebe a seguinte resposta: “O fato de você conseguir ver tudo não implica que você consiga entender tudo”.
Esta é uma das falas mais esclarecedoras e verdadeiras sobre a realidade das técnicas de interpretação da linguagem corporal. É exatamente aí que reside a principal de suas limitações. Essa interpretação precisa ser complementada com outras técnicas para que, uma vez identificadas as emoções do processo comunicativo, as explicações, razões, motivos e os demais conteúdos possam ser expressos por meio da verbalização.
Portanto, devemos tomar cuidado ao fazer juízo a partir dos indicadores não verbais, principalmente por causa da questão da privacidade. Dificilmente saberemos quais as razões (vergonha, medo, insegurança, etc.) que levaram a apresentadora à ocultar algum fato ou contar parcialmente outros, e mais: em que medida é realmente útil apontarmos o dedo para a apresentadora, dizendo que ela é uma “mentirosa”? Não seria mais útil utilizarmos esta percepção em uma negociação de um veículo, reunião de trabalho, percepção do interesse dos ouvintes em sua palestra, enfim, no nosso cotidiano, como mais uma ferramenta de trabalho?
Estudar emoções não pára apenas no seu reconhecimento, você precisa saber como elas são construídas, o seu potencial realizador e também os danos que determinadas emoções podem causar. Diante disso, é impossível trabalhar com esse tema e não se tornar mais sensível a esses estados emocionais. Além disso, a pessoa passa a ficar mais atenta às suas próprias emoções.
Leia também: Lie to Me – Sétimo Episódio.
Lembre-se que as técnicas nos dão uma idéia de como a pessoa está se sentindo, mas só ela mesma pode avaliar a profundidade, os motivos e disposição para agir a partir do que sente. Diante disso, não pense que você sabe mais sobre os sentimentos de alguém do que a própria pessoa.
Não existe muito sentido em analisar apenas a linguagem corporal em busca de algo que apenas “mate” nossa curiosidade , a não ser sob um ponto de vista meramente preventivo. Por exemplo, você pode afastar de si algumas pessoas potencialmente prejudiciais a você utilizando a avaliação da linguagem corporal delas. Para isso, não há necessidade de saber os motivos pelos quais as pessoas querem te aplicar um “golpe”. O que interessa, é sair dele!
No entanto, na maioria dos contextos, é de suma importância saber o porquê das pessoas experimentarem determinada emoção, principalmente na condução de investigações policiais ou administrativas.
Não confunda astrologia com astronomia.
Navegando na Internet, vi alguns “profissionais” da área se utilizando desta curiosidade (inerente ao ser humano), para autopromoção. Lembro-me que um destes especialistas argumentou que a Xuxa foi sincera até certo ponto, mas mentiu nos pontos mais importantes. Percebam como as palavras são dispostas: o profissional “atesta” sua competência afirmando que a interlocutora falou a verdade (mostrando-se conhecedor do assunto, já que afirma que ela falou a verdade), mas logo em seguida deixa um “gancho”, de forma imprecisa, quando fala que ela “mentiu nos pontos mais importantes”. Afinal, que pontos seriam esses?
Leia também: Lie to Me – Oitavo Episódio.
Ora, são justamente estes pontos que mais interessam (lembram da curiosidade inerente a nós?), e este profissional sutilmente sufere que tem a capacidade de: (1) perceber quais são; (2) desvendá-los. Quem não adoraria ter todos os mistérios desvendados?
Neste momento, acho interessante citar uma diferença que nem sempre é bem percebida entre a astrologia e astronomia, embora esta última tenha sido derivada da primeira, são ciências (ou pseudociência no caso da primeira?) que diferem de forma gritante: em termos extremamente simplistas, a astrologia estuda as posições relativas dos corpos celestes e como estes podem prover informação sobre a personalidade, as relações humanas, e outros assuntos mundanos, já a astronomia está preocupada com a evolução, a física, a química, e o movimento de objetos celestes, bem como a formação e o desenvolvimento do universo.
Observem que muitas vezes, para ter mais credibilidade, astrólogos “misturam” conhecimentos da astronomia com a astrologia, visando ter um respaldo científico, no entanto, se olharmos o assunto com um pouco mais de cuidado, veremos que existem falhas nos supostos suportes científicos propagados pelos astrólogos.
Com a análise da linguagem corporal ocorre algo semelhante, observem que alguns “especialistas” nessa análise optam por apontar para quem fala a verdade ou a mentira ao invés de debater como entender melhor nossas emoções, saber o momento correto de melhorar nossa percepção em relação ao interlocutor e lidar com as emoções das pessoas que nos rodeiam, seja no trabalho ou no nosso lar.
Ao mesmo tempo que eles confundem, fazem parecer que a análise não verbal é uma ferramenta simples de ser utilizada, mas se aprofundarmos um pouco mais o debate, as “defesas científicas” dos mesmos irão facilmente sucumbir. Não deixem sua curiosidade sobrepor seu senso de ética e respeito ao espaço individual.
E você? O que pensa sobre isso? Deixe-nos o seu comentário!
Saudações e prossiga acompanhando os nossos artigos.
Edinaldo Oliveira
Referências:
Senna, Sérgio. “Lie to Me – Sétimo Episódio.”; ibralc.com.br – IBRALC. Disponível em: https://ibralc.com.br/lie-to-me/lie-to-me-setimo-episodio/. Acessado em 28/05/2012.
Senna, Sérgio. “Lie to Me – Oitavo Episódio.”; ibralc.com.br – IBRALC. Disponível em: https://ibralc.com.br/lie-to-me/lie-to-me-oitavo-episodio/. Acessado em 28/05/2012.

