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Reconhecer as emoções: habilidade natural ou aprendida?

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Muitas pessoas me perguntam se há diferença entre aqueles que possuem uma habilidade “natural” para reconhecer as emoções e os que intencionalmente aprendem a reconhecê-las. Não creio que a diferença seja tão significativa e, há algum tempo escrevi o artigo – Como surgem as habilidades naturais para perceber emoções.

Habilidades naturais

Naquele texto, argumentei sobre duas hipóteses que estão documentadas na literatura científica, principalmente de origem norte-americana.

A tese principal consiste em que:

As altas habilidades em perceber aspectos da comunicação não verbal podem estar associadas a contextos em que a pessoa, no seu ciclo de vida, passou por abusos ou conviveu em ambientes em que tinha de prestar atenção aos indicadores não verbais para sobreviver.

Esse é o exemplo que nos traz o seriado Lie to Me com a personagem Mia Torres.

Além disso, podem existir outras hipóteses como a de pessoas que se desenvolveram no contexto de “tirar vantagem” dos outros. Para tanto, desenvolvem habilidades de observar as emoções, interpretar as vulnerabilidades emocionais dos outros ou até mesmo provocar estados emocionais para ludibriarem alguém. Uma maneira de analisar o comportamento das diferentes pessoas que conseguem perceber as emoções alheias é prestar atenção no objetivo a que se orientam suas ações.

Explico, utilizando as histórias de João e Francisco:

João


Esmola no Sinal - Linguagem Corporal - IBRALC

João é uma pessoa egoísta cuja infância foi marcada pela falta de quase tudo. Desde pequeno foi explorado, pois seus pais o “fizeram” trabalhar desde os 9 anos. Seu “trabalho” era pedir esmolas no sinal. Inicialmente ele ficava com raiva, pois nenhum dinheiro parava em sua mão para comprar os doces de que tanto gostava. Seu pai ficava com tudo. Depois de um tempo, percebeu que as pessoas reagiam de forma diferente aos seus pedidos de esmola. Com a prática, aprendeu a representar aquilo que mobilizava as pessoas e as fazia emocionarem-se com a sua situação e se compadecerem dele. Hoje, João é um adulto manipulador e sua vida se desenvolve no mundo dos golpes contra aposentados.


 

Francisca


teste

Francisca é uma pessoa altruísta cuja infância foi marcada pela falta de quase tudo. Desde pequena foi explorado, pois seus pais a “fizeram” trabalhar desde os 9 anos. Seu “trabalho” era pedir esmolas no sinal. Inicialmente ela ficava com raiva, pois nenhum dinheiro parava em sua mão para comprar os doces de que tanto gostava. Seu pai ficava com tudo. Depois de um tempo, percebeu que as pessoas reagiam de forma diferente aos seus pedidos de esmola.  Sem nunca ter se conformado  com sua exploração, fugiu de casa assim que completou 12 anos. Trabalhou duro, estudava à noite e jurou a si mesma que faria o possível para que crianças jamais fossem exploradas por seus pais. Quando se deu conta que conseguia perceber as emoções dos outros com muita clareza, começou a trabalhar para uma ONG que tinha um programa de aconselhamento para famílias de dependentes químicos. Sua capacidade de empatia era tão grande, que todos achavam que ela era “abençoada” por Deus para fazer aquele trabalho. Hoje, Francisca  é uma adulta madura e sua vida se desenvolve na atenção a crianças que sofrem violência familiar.


 

Para ilustrar essa postagem, criei duas histórias muito semelhantes, parecidas com as de tantos Joões e Franciscas que existem no Brasil. O curso de nossa vida pode ser muito semelhante, mas as decisões que tomamos vão muito além das influências genéticas e dos ambientes nos quais nos desenvolvemos. Esse é o motivo pelo qual se pode explicar por que irmãos criados em uma mesma família podem ser muito diferentes.

No que diz respeito ao reconhecimento das emoções humanas, tanto Francisca quanto João possuíam habilidades avançadas que foram desenvolvidas no contexto da sua exploração enquanto crianças. Entretanto, mais importante do que o desenvolvimento de uma certa habilidade são as decisões sobre o que faremos com ela.

Penso que muitos optam por todo o tipo de “naturalização” pois isso esvazia a responsabilidade pessoal. Quando se diz que alguém tem habilidades “naturais”, há que se ter cuidado para que não se justifique o uso indevido dessas habilidades só por que elas são “naturais”. É como contrair uma doença viral. Que culpa o doente tem? Afinal, foi o vírus que causou a doença….. A causa está “fora” da pessoa, sendo conveniente deixar de analisar os seus comportamentos e decisões que possam ter dado uma ajuda ao vírus para que se instalasse.

Naturalização

A naturalização pode ocorrer de várias formas, a naturalização genética, por exemplo, é bem conhecida e outra  delas foi por mim ilustrada na história de Francisca quando pessoas lhe atribuíam “um dom divino” para estabelecer uma relação empática com seus semelhantes. Atribuir alguma causa mágica ou divina são estratégias bastante utilizadas para explicar o desconhecido.

As ditas habilidades naturais também são aprendidas, pois foi o treinamento precoce que as faz florescer antes. Esse processo de aprendizagem pode ser mais duro e profundo para aqueles que sofreram violência na infância, já que toda habilidade tem a sua dimensão emocional.

Imagine o que emocionalmente significa para uma criança ter que observar o estado de humor de seu pai ou de sua mãe para saber como reagir a fim de não ser espancado por qualquer coisa que diga ou faça…. O desenvolvimento dessas habilidades e competências estará profundamente internalizado em seu psiquismo. Não é uma atividade eminentemente cognitiva, mas sim emocionalmente mediada. Isso é duro, sério, profundo e qualitativamente muito diferente do que ocorre com aqueles que aprendem a observar os detalhes das emoções de seus semelhantes já como adultos.

Entretanto, não há evidências de que a qualidade dessas observações possa ser melhor do que as daqueles que aprendem posteriormente.

Quando aprendemos a interpretar as habilidades sob o ponto de vista do desempenho ao utilizá-las e das decisões que tomamos ao emprega-las, as formas como elas se desenvolveram perdem um pouco a importância.

Ao concluir essa reflexão, penso que é importante destacar que não há um certo destino traçado para aqueles que observam as emoções de seus semelhantes. Não importando quando essas habilidades se desenvolvem, todos nós, sem exceção, estaremos sempre diante de uma decisão diária sobre como utiliza-las.

Um abraço e siga acompanhando as nossas matérias.

Sergio Senna