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A linguagem corporal é cultural?

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Sem dúvida alguma, a linguagem é cultural. Há evidências científicas robustas de que uma boa parte da linguagem corporal é cultural (Segerstrale & Molinar, 2018; Matsumoto; Hwang, 2016; Elfeinbein et al., 2007), o que produz muitas diferenças na forma como vivenciamos essa dimensão da comunicação.

O exemplo mais claro disso são os emblemas, que consistem em gestos cujos significados são coletivamente negociados em um determinado grupo cultural. Normalmente, gestos obscenos estão classificados nessa categoria. Se alguém fizer um gesto desse tipo, para os participantes de determinada cultura, todos entendem e se ofendem! No entanto, um estrangeiro pode ficar um pouco confuso e levar um tempo para entender o que está ocorrendo.

Não obstante esse aspecto cultural, a pesquisa científica também dedicou boa parte da sua atenção a tentar demonstrar que existe uma influência evolutiva muito forte na CNV (Kret & Straffon, 2018; Crivelli et al. 2016; Matsumoto & Willingham, 2009.). Nesse contexto, apesar de não ser o nosso principal objetivo nesse artigo, é necessário apontar para a questão do essencialismo aplicado à CNV, da busca de regras ou padrões universais, o que sempre acaba sendo alvo de críticas nos estudos acadêmicos que perseguem esse objetivo (Barret & Westlin, 2021).

A linguagem corporal é um híbrido fisiológico e cultural

Ainda que compartilhemos a mesma fisiologia, cada ser é diferente e responde diferentemente às condições ambientais. Esse é um indicador de que é necessário tomar cuidado com a defesa da existência de leis universais. Além disso, há evidências de que o resultado de certos experimentos não tenha recebido as devidas críticas, sendo aceitos e propagados de forma apressada (Vrij & Fisher, 2020; Burgoon, 2018).

Esse aspecto avulta de importância ao considerarmos a disseminação de conhecimento pseudocientífico nos livros de autoajuda sobre linguagem corporal, reconhecimento de emoções e sobre a identificação da mentira pelo comportamento não verbal. Boa parte da produção com essa característica tenta criar protocolos, estabelecer regras gerais ou criar métodos a partir dos quais seria possível interpretar o comportamento não verbal.

Essa é uma manifestação popular e comercial do essencialismo, aplicado à CNV, e colocado a serviço da exploração mercadológica de técnicas e métodos, supostamente baseados em conhecimento científico.

Apesar disso, como anteriormente mencionado, o uso e a interpretação da CNV podem ajudar muito nos debates políticos (Wahl-Jorgensen, 2019). Seja para enfatizar as suas influências nas narrativas, seja como auxílio na interpretação do que os interlocutores estão dizendo ou mostrando.

A CNV pode ser muito útil, por exemplo, para a identificação de fake news. Por meio das pistas visuais, que são muito difíceis de manipular, como as cores, os móveis, os lugares, a arquitetura, as posições do corpo etc., é possível desconfiar da credibilidade de determinada figura, texto ou mensagem. Indiscutivelmente, a sua utilização é fundamental em um contexto eminentemente persuasivo, como ocorre nos debates políticos.

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Para entendermos com mais profundidade esse assunto, é necessário destacar que o psiquismo humano é composto de processos básicos (Zavershneva & van der Veer, 2019), mais antigos, normalmente não conscientes e diretamente relacionados com o funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo, e processos que podemos chamar de superiores (aqueles que nos diferenciam dos outros animais): (1) a ação conscientemente controlada; (2) a memória ativa e (3) o pensamento abstrato (Zarvershneva & van der Veer, 2018).

A maioria dos cientistas focaliza sua atenção em um ou outro conjunto de processos. A confusão tende a diminuir quando conseguimos considerar que os processos básicos não prevalecem, necessariamente, sobre os superiores e vice-versa. Os processos psicológicos atuam concomitantemente (de forma isolada ou articulada) e não há como prever, de forma geral, qual deles prevalecerá ou funcionará como “orientador” principal de determinado comportamento.

É o que ocorre, por exemplo, com muitas das pessoas que se recuperam do abuso de drogas ilícitas. Apesar da vontade de parar, os mecanismos básicos, relacionados com o circuito fisiológico dopaminérgico do prazer, podem regular uma “vontade” de usar drogas. É estabelecida, então, uma concorrência entre um processo consciente superior (saber que não deve drogar-se por vários motivos) e as dependências psíquica e química da droga, relacionadas a alguma percepção fisiológica supostamente agradável (processo básico – dependência química).

Tendo isso em mente, concluímos que a linguagem corporal é cultural e biológica, simultaneamente, o que torna seu estudo um desafio, devido à complexidade que a articulação teórica entre esses dois campos sempre apresentou ao longo da história da ciência. Não obstante, os exemplos aqui apresentados destacam, mais uma vez, a sua relevância para o entendimento, a análise e o seu uso no contexto dos debates políticos.

A dimensão cultural da CNV fica evidente quando os mesmos sinais gestuais podem ter significados distintos em diferentes culturas. Existem gestos denominados emblemas (Ekman, 2004a), que são culturalmente negociados e que possuem um significado geral conhecido. Por exemplo, o sinal de “V” feito com os dedos de uma das mãos possui significados diferentes na Inglaterra, dependendo se é feito mostrando as costas ou a palma da mão para o interlocutor. O primeiro é um gesto obsceno, o segundo é um símbolo de vitória.

Normalmente, gestos obscenos estão classificados nessa categoria. Se alguém fizer um gesto desses todos entendem! No entanto, um estrangeiro pode ficar um pouco confuso.

É bom ficar alerta sobre isso, pois o “V” da vitória tem significados diferentes na Inglaterra, dependendo se é feito mostrando as costas ou a palma da mão….

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Outro exemplo: é comum, entre os jovens, ensinar gestos a um estrangeiro como brincadeira para constrangê-lo. Por outro lado, o mesmo estrangeiro, ao utilizar o gesto (ou expressão) perceberá que fez algo inapropriado, mas não terá a mesma percepção emocional do que aquilo significa para os integrantes da cultura onde a linguagem corporal (gesto) faz “todo o sentido”.

É fato de que a CNV é uma parte dela, a linguagem corporal é cultural, ou pelo menos tem um forte componente cultural, nos faz vivenciá-la no dia a dia até não a percebermos. O seu uso cotidiano nos dessensibiliza para a percepção consciente desses indicadores. No entanto, suas funções e a as suas influências não deixam de existir, e nós não paramos de sentir os seus efeitos por causa disso.

Observar esses aspectos é de grande importância nos debates, pois o ambiente persuasivo e o choque de ideias e das emoções serão regulados por essa camada não verbal. Apesar da controvérsia, há evidências da relação entre a linguagem corporal e as expressões faciais de emoções básicas com o funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo (Burgoon, 2018). Assim sendo, há uma possibilidade razoável de que as expressões faciais de emoções básicas revelem as primeiras fases dos nossos estados emocionais (Reisenzein, Horstmann & Schutzwohl, 2019). Nesse contexto, um orador que, utilizando-se apenas da retórica, tenta defender um ponto de vista, pode deixar transparecer as suas primeiras emoções sobre o assunto. Caso essas emoções reveladas pelas expressões faciais sejam incongruentes com a sua fala, o valor persuasivo da sua oratória pode diminuir em relação à audiência.

Por exemplo, na literatura científica relacionada com a Psicologia Evolutiva, é frequente encontrarmos a expressão “emoção verdadeira” (Ekman, 2004). Como a definição sobre verdade sempre será um assunto controverso, preferimos denominá-la de primeira emoção. Essa concepção é importante quando tratamos da política, pois, não raras vezes, um ator político tem que interagir e negociar com seus adversários no campo ideológico. Considere o seguinte exemplo. Um político sente raiva de determinado argumento utilizado na narrativa de um adversário. Após essa primeira e rápida experiência emocional subjetiva, ele toma mais uns minutos para refletir sobre o argumento e chega à conclusão de que, a despeito de se originar a partir da narrativa de um adversário, o argumento é válido. Ao examinar as suas emoções, o político percebe que sentiu raiva, mas agora está alegre por ter percebido o seu erro. Nesse contexto, qual seria a emoção “verdadeira”?

Esse exemplo nos mostra que existem processos básicos e superiores atuando simultaneamente e que o resultado intrapsicológico não pode ser predito com absoluta certeza. A primeira emoção não é mais verdadeira do que aquela experimentada pelo sujeito de nosso exemplo depois de tomar um tempo para reflexão.

É comum encontrar nos livros de auto-ajuda que ensinam a interpretar a linguagem corporal que um “pessoa fechada” está com as pernas cruzadas e as mãos juntas (quem sabe até mesmo com a bolsa no colo se for uma mulher sentada). Entretanto, em algumas culturas, as mulheres aprendem que devem se sentar assim, com as pernas fechadas, com as mãos ou a bolsa no colo…. Nesse caso, isso não indicaria que está desconfortável, ela apenas segue uma regra social aprendida.

Existem as chamadas regras de display (Matsumoto, 1990), de demonstração ou de apresentação (dependendo da tradução). É a tão conhecida “cara de enterro“… por exemplo.

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A análise da linguagem corporal é um tema tão interessante que expressões podem variar dentro de um mesmo grupo cultural (os brasileiros, por exemplo) e encontraremos gestos característicos de gaúchos, nordestinos, mineiros etc. Essa variação é conhecida como dialetos não verbais e vem sendo bastante estudada (Elfenbein et all, 2007).

Conclusão

De qualquer forma, é necessário prestar atenção a alguns aspectos importantes para não ficarmos mais confusos.

O psiquismo humano é composto de processos básicos (mais antigos, normalmente não conscientes e diretamente relacionados com o funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo) e processos que podemos chamar de superiores (aqueles que nos diferenciam dos outros animais): (1) a ação conscientemente controlada; (2) a memória ativa e (3) o pensamento abstrato.

A maioria dos cientistas focaliza sua atenção em um ou outro conjunto de processos. A confusão desaparece quando conseguimos considerar que os processos básicos não prevalecem, necessariamente, sobre os superiores e vice-versa. Os processos atuam concomitantemente (de forma isolada ou articulada) e não há como prever, de forma geral, qual deles prevalecerá ou funcionará como “orientador” principal de determinado comportamento.

É o que ocorre, por exemplo, com muitas das pessoas que se recuperam do uso de drogas ilícitas. Apesar da vontade de parar, os mecanismos básicos, relacionados com o circuito do prazer no Sistema Límbico, podem regular uma “vontade” de usar drogas novamente. Estabelece-se, então, uma “competição” entre um processo consciente superior (saber que não deve drogar-se por vários motivos) e a dependência psíquica da droga ligada à alguma percepção supostamente agradável (processo básico).

Tendo isso em mente, concluímos que a linguagem corporal é cultural e biológica, simultaneamente . O que torna seu estudo um desafio, devido a complexidade que apresenta.

Cuidado com livros de autoajuda nessa área que apresentam padrões rígidos e descontextualizados. Não existe mágica nesse processo interpretativo.

Prossiga com segurança em seu estudo.

Artigo originalmente elaborado em 9 de outubro de 2012. Revisado e ampliado em 07 de outubro de 2023.

Referências

Barrett, L. F., & Westlin, C. (2021). Navigating the science of emotion. In Emotion measurement (pp. 39-84). Woodhead Publishing.

Burgoon, J. K. (2018). Microexpressions are not the best way to catch a liar. Frontiers in Psychology, 1672.

Crivelli, C., Russell, J. A., Jarillo, S., & Fernández-Dols, J. M. (2016). The fear gasping face as a threat display in a Melanesian society. Proceedings of the National Academy of Sciences, 113(44), 12403-12407.

Ekman, Paul (2004). Emotions revealed. Bmj, v. 328, n. Suppl S5.

Elfenbein, H. A., Beaupré, M., Lévesque, M., & Hess, U. (2007). Toward a dialect theory: cultural differences in the expression and recognition of posed facial expressions. Emotion, 7(1), 131.

Kret, M. E., & Straffon, L. (2018). Reply to Crivelli et al.: The different faces of fear and threat. Evolutionary and cultural insights. Journal of human evolution, 125, 193-197.

Matsumoto, D. (1990). Cultural similarities and differences in display rules. Motivation and Emotion, 14(3), 195-214.

Matsumoto, D., & Willingham, B. (2009). The origin of universal human emotions. San Francisco: San Francisco State University.

Matsumoto, D., & Hwang, H. C. (2016). The cultural bases of nonverbal communication. In APA handbook of nonverbal communication. (pp. 77-101). American Psychological Association.

Reisenzein, R., Horstmann, G., & Schützwohl, A. (2019). The cognitive‐evolutionary model of surprise: A review of the evidence. Topics in Cognitive Science, 11(1), 50-74.

Segerstråle, U., & Molnár, P. (2018). Nonverbal communication: where nature meets culture. Routledge.

Vrij, A., & Fisher, R. P. (2020). Unraveling the misconception about deception and nervous behavior. Frontiers in Psychology, 11, 1377.

Wahl-Jorgensen, K. (2019). Emotions, media and politics. John Wiley & Sons.

Zavershneva, E., & van der Veer, R. (2018). Vygotsky’s notebooks. Perspectives in cultural-historical research.

Zavershneva, E., & van der Veer, R. (2019). Vygotsky and the Cultural-Historical Approach to Human Development. In: Oxford Research Encyclopedia of Psychology.