A história do estudo da comunicação não verbal é repleta de cientistas que dedicaram as suas vidas a esse tema. Iremos destacar cinco entre os mais significativos:
Charles Darwin

A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (1872) é um livro escrito por Charles Darwin e trata sobre como o ser humano e os animais expressam as suas emoções. Esse livro é um marco na história da comunicação não verbal, pois foi a primeira obra, com viés científico, de grande circulação sobre as emoções e as expressões faciais.
Darwin observou que era possível que nossas expressões faciais expressassem certas emoções que seriam compartilhadas por todos os seres humanos e sobre isso diz:
…the young and the old of widely different races, both with man and animals, express the same state of mind by the same movements. (“… os jovens e os velhos de raças muito diferentes, tanto com o homem e os animais, expressam o mesmo estado de espírito com os mesmos movimentos.”)
Nessa época, havia uma polêmica sobre a natureza “divina” do ser humano, mesmo na fisiologia. Um exemplo dessa tendência está no conteúdo do livro “Anatomy and Physiology of Expression”, de Charles Bell, no qual se defende a existência de músculos únicos e divinamente criados para a expressão das emoções humanas. Darwin, obviamente, se opunha a isso, defendendo que existia uma origem partilhada entre seres humanos e animais em sua fisiologia.
A relevância desse trabalho consiste na elaboração da hipótese de que certas emoções podem ser consideradas universais, compartilhadas por todos os seres humanos. Uma das características desse tipo de emoções é que se manifestam na face por meio de expressões faciais típicas.
Abaixo, artigo de Castilho e Martins sobre as concepções evolutivas de Darwin:
William James
William James
William James (1842-1910) foi um filósofo e importante psicólogo norte-americano. Um dos fundadores do pragmatismo norte-americano e um dos pioneiros da Psicologia Funcional. Naceu em Nova York, teve acesso a uma boa escolariação.
Curioso, estudou pintura, medicina, e em 1865, acompanhou o naturalista Louis Agassiz na Expedição Thayer, em estudo científico no Brasil. Durante oito meses, esteve no Amazonas e no Rio de Janeiro e registrou tudo em seu diário, onde também desenhou cenas da expedição. A partir de 1867 começou a publicar, passando a maior parte de sua carreira acadêmica em Harvard.
Com uma formação diversificada, mostrava o seu interesse para as questões psicológicas e o estudo científico da mente humana, seus valores morais e espirituais, justamente na época da consolidação da Psicologia como ciência.
Em 1890 publicou o livro Princípios de Psicologia, obra que teve o mérito de apresentar a Psicologia como ciência independente de sua íntima relação com a fisiologia. Foi um dos pioneiros da Psicologia Funcional. A leitura dessa obra é recomendada até os dias de hoje, apesar de ter mais de um século de publicação.
Sua importância para o estudo da comunicação não verbal reside no foto do seu pioneirismo na pesquisa empírica sobre a percepção e as emoções.

Ray Birdwhistell
Ray L. Birdwhistel (1918-1994), foi um antropólogo e especialista em como as pessoas se comunicam por meio de movimentos corporais. Aposentou-se em 1988 pela Universidade da Pensilvânia, onde começou a trabalhar em 1969. Desde 1942 até 1969, ele ensinou e realizou pesquisas nas Universidades de Toronto; Louisville; Universidade Estadual de Nova York; Universidade de Buffalo; e Temple.
Sua obra consagrada, Kinesics and Context (1970), mostrou a importância do estudo sobre o movimento do corpo humano (Cinésica). Nesse campo, avançou na teoria sobre uso de todos os sentidos para a realização da comunicação humana. Foi pioneiro no estabelecimento de que a informação transmitida por gestos e movimentos humanos é codificada e modelada de forma diferente em várias culturas, e que esses códigos podem ser descobertos por um escrutínio qualificado de movimentos particulares dentro de um contexto social.
Kinesics and Context, publicado em 1970, reúne os principais ensaios de Ray Birdwhistell sobre movimento corporal e comunicação. A obra parte da ideia de que os gestos não possuem significado isolado nem universal. Pessoas aprendem formas de mover o corpo dentro de contextos culturais específicos, e o pesquisador precisa examinar esses movimentos em relação à fala, ao espaço, ao ritmo da interação e à situação social. Birdwhistell também rejeitou a separação rígida entre comunicação verbal e não verbal. Para ele, a comunicação humana mobiliza diferentes canais sensoriais e só pode ser compreendida como processo integrado.
Principais livros
- Introduction to Kinesics: An Annotation System for Analysis of Body Motion and Gesture (1952). Apresenta um sistema inicial de registro e análise dos movimentos corporais e dos gestos.
- Kinesics and Context: Essays on Body Motion Communication (1970). Obra central de Birdwhistell, dedicada às relações entre movimentos corporais, cultura, contexto e comunicação.
A lista é curta porque Birdwhistell publicou apenas esses dois livros autorais de maior reconhecimento. Parte relevante de sua produção apareceu em artigos, capítulos, conferências e trabalhos coletivos.

Albert Mehrabian
Albert Mehrabian nasceu em 1939, no Irã. Formou-se inicialmente em engenharia no Massachusetts Institute of Technology, concluiu o doutorado em Psicologia na Clark University e iniciou, em 1964, uma longa trajetória de ensino e pesquisa na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Atualmente, dedica-se à escrita e à consultoria como professor emérito de Psicologia da UCLA.
Mehrabian ganhou projeção por investigar como as pessoas comunicam emoções e atitudes por diferentes canais. Seus estudos examinaram palavras, características vocais, expressões faciais, postura, distância interpessoal e outros comportamentos não verbais. O interesse central não estava em provar que o corpo substitui a linguagem, mas em compreender como os observadores formam impressões quando diferentes componentes da mensagem parecem coerentes ou contraditórios.
A chamada regra 7-38-55 surgiu de experimentos muito restritos sobre a comunicação de sentimentos e atitudes, especialmente em situações de incongruência. Os números se referiam ao peso relativo atribuído às palavras, às características vocais e às expressões faciais na formação de uma impressão de agrado ou desagrado. Eles não permitem afirmar que apenas 7% de toda comunicação humana depende das palavras, nem que 93% de qualquer mensagem seja não verbal. Essa generalização retirou os resultados de seu contexto experimental e transformou uma conclusão limitada em fórmula universal.
Silent Messages
Publicado originalmente em 1971, Silent Messages reuniu e apresentou a um público mais amplo as pesquisas de Mehrabian sobre comunicação implícita de emoções e atitudes. O livro aborda expressões faciais, voz, postura, orientação corporal, distância, contato visual, status e diferentes formas de aproximação ou afastamento nas relações sociais. Sua contribuição mais útil está em mostrar que parte importante da interação ocorre além do conteúdo literal das palavras. Isso não significa que sinais não verbais possuam significado fixo ou revelem automaticamente a verdade. Eles participam da interpretação da mensagem e precisam ser examinados em relação à situação, ao conteúdo verbal e aos demais canais presentes.
Principais livros relacionados à comunicação não verbal
- Language Within Language: Immediacy, a Channel in Verbal Communication (1968), com Morton Wiener. Examina como escolhas linguísticas, características vocais, gestos, postura e distância podem comunicar aproximação, afastamento e avaliação interpessoal.
- Silent Messages (1971). Apresenta pesquisas sobre a comunicação implícita de emoções e atitudes por palavras, voz, face, postura e organização espacial.
- Nonverbal Communication (1972). Reúne de forma mais sistemática estudos sobre postura, posição corporal, expressões faciais e vocais, contato visual, proximidade e percepção de atitudes.
- An Approach to Environmental Psychology (1974), com James A. Russell. Desenvolve o modelo de prazer, ativação e dominância para analisar como ambientes influenciam emoções, aproximação, afastamento, afiliação e comportamentos verbal ou não verbalmente expressos.
A importância histórica de Mehrabian não está na suposta descoberta de uma porcentagem universal da comunicação. Está na investigação de como diferentes canais participam da expressão e da interpretação de emoções, atitudes e relações interpessoais.
Sobre isso, veja o artigo abaixo:
O erro interpretativo por trás dos 93% da comunicação não verbal
Erro interpretativo começa quando gesto, voz ou rosto viram certeza. Leitura corporal crítica trabalha com hipóteses e prudência contextual.
Paul Ekamn
Paul Ekman – Expressões Faciais e Emoções
Conheça a vida e obra de Paul Ekman, referência científica mundial na análise de microexpressões faciais e do reconhecimento do...
Paul Ekman (1934–2025) foi um psicólogo norte-americano conhecido por suas pesquisas sobre emoções, expressões faciais e comunicação não verbal. Atuou durante décadas na Universidade da Califórnia em São Francisco, onde se tornou professor emérito. Seus trabalhos ajudaram a consolidar o estudo sistemático dos movimentos da face e das relações entre expressão, emoção, contexto social e tentativa de ocultação.
Ekman ganhou projeção internacional por investigar semelhanças e diferenças culturais nas expressões emocionais. Em colaboração com Wallace V. Friesen, participou do desenvolvimento do Facial Action Coding System, conhecido como FACS, um sistema descritivo para registrar movimentos visíveis da musculatura facial. O FACS não diagnostica emoções, personalidade ou mentira. Ele descreve ações faciais que pesquisadores e profissionais podem posteriormente interpretar em relação ao contexto, à fala, à situação e a outras evidências.
Sua produção também ficou associada ao estudo das microexpressões, movimentos faciais muito breves que podem ocorrer quando uma emoção começa, é regulada ou se tenta ocultá-la. Esse campo recebeu ampla divulgação pública, mas também gerou extrapolações. Reconhecer uma expressão não equivale a determinar sua causa, identificar uma intenção ou concluir que alguém mente. A mesma configuração facial pode surgir em situações distintas, e a interpretação exige contexto, linha de base, sequência temporal e informação adicional.
Telling Lies
Publicado originalmente em 1985, Telling Lies: Clues to Deceit in the Marketplace, Politics, and Marriage examina por que algumas mentiras fracassam e que sinais podem acompanhar tentativas de ocultar emoções ou informações. Ekman analisa palavras, voz, face e corpo, mas não apresenta um gesto infalível de mentira. O próprio problema exige cautela: sinais de tensão, medo ou desconforto podem indicar muitas condições além do engano. O valor do livro está menos em oferecer uma técnica de detecção e mais em mostrar os limites, os erros e as condições sob as quais observadores formulam hipóteses sobre credibilidade.
Emotions Revealed
Em Emotions Revealed, publicado em 2003 e posteriormente revisto, Ekman apresenta emoções como raiva, medo, tristeza, repulsa e felicidade, descrevendo como elas podem surgir, desenvolver-se e aparecer no rosto. O livro combina fotografias, exercícios e explicações sobre expressão emocional, controle da resposta e reconhecimento facial. Sua leitura pode ampliar o vocabulário emocional, mas não autoriza conclusões automáticas sobre o estado interno de uma pessoa a partir de uma fotografia ou de um movimento isolado.
Principais livros relacionados à comunicação não verbal
- Emotion in the Human Face (1972). Reúne pesquisas e critérios metodológicos sobre expressão facial e emoção.
- Darwin and Facial Expression: A Century of Research in Review (1973). Examina a tradição iniciada por Darwin e os debates científicos sobre expressão emocional.
- Unmasking the Face (1975), com Wallace V. Friesen. Apresenta configurações faciais associadas a diferentes emoções e exercícios de reconhecimento.
- The Face of Man (1980). Discute expressões emocionais a partir do trabalho de campo realizado na Nova Guiné.
- Telling Lies (1985). Analisa mentira, ocultação emocional, vazamento comportamental e limites da detecção.
- What the Face Reveals (1997), organizado com Erika Rosenberg. Reúne estudos que utilizam o FACS em pesquisas sobre emoção, saúde e interação social.
- Emotions Revealed (2003). Obra de divulgação sobre emoções, expressões faciais e regulação emocional.
- Nonverbal Messages: Cracking the Code (2016). Retoma a trajetória de pesquisa de Ekman sobre expressões, gestos, voz e comportamento não verbal.
A importância histórica de Ekman não está em ter criado um método capaz de “ler pessoas”. Está em ter contribuído para descrever movimentos faciais de forma sistemática, investigar relações entre emoção e expressão e mostrar que a observação comportamental exige método, contexto e prudência.
Bom estudo
Sergio Senna



